Reencantar-se com a arte de cuidar: Um imperativo ético emergente e urgente! Leo Pessini

November 21, 2015

 

 

 

 

A generosidade e o senso ético do prof. Leo Pessini , através deste texto enviado ao Mais Gente, vem reforçar nossa convicção de que toda e qualquer competência em saúde deve ser alicerçada na defesa de valores universais. Como docentes ou como profissionais de saúde devemos nos reencantar com nosso fazer, sem este compromisso nenhuma transformação é possível!

 

 

Vivemos hoje uma verdadeira “crise de humanização” cujos sintomas mais evidentes se manifestam sob o descuido, descaso, indiferença e abandono da vida mais vulnerável que clamam aos céus.  Para citar apenas alguns exemplos: encontramo-nos com crianças famintas perambulando nos cruzamentos de nossas cidades, aumento do número dos excluídos das benesses do progresso, descaso para com os idosos, utilitarismo depredatório em relação ao meio ambiente e instituições de saúde tecnicamente impecáveis, equipadas com tecnologias de última geração, mas infelizmente frias, sem calor e alma humana! 

Felizmente estamos começando a ter exemplos e testemunhos de sensibilidade e solidariedade em relação à vida humana vulnerabilizada pela doença e sofrimento que nos deixam esperançosos ao nos apontar que a essência da vida é o cuidado. Desde o nível pessoal até o cósmico ecológico ( “o cuidado da nossa casa comum”), a garantia de vida digna e de existência no futuro hoje passa pelo grito ético da necessidade do cuidado. O grande desafio para todos os profissionais que trabalham no âmbito da saúde hoje, para além da competência tecnocientífica, é também ser capaz de vivenciar competência humano e ética, que se traduz no cuidado respeitoso. 

Mas o que entender por cuidado? Etimologicamente a expressão terapêutica deriva do grego therapéuo, que significa ”eu cuido”. Na Grécia antiga, “o thérapeuter” era aquele que se colocava junto a quem sofria, que compartilhava da experiência da doença do doente para poder compreendê-la, e então mobilizar seu conhecimento e sua arte de cuidar, sem saber se poderia realmente curar. Para compreender a doença, ele se interessava pela totalidade de vida do doente, inclinando-se para ouvi-lo e examiná-lo. Essa inclinação (klinos, em grego, termo do qual deriva a palavra “clínica”) significava também uma reverência e respeito ante o sofrimento do doente. 

Cuidar sempre é possível, mesmo quando cura não é mais possível. Sim, deparamo-nos com doentes ditos “incuráveis”, mas que nunca são, e nunca deveriam deixar de ser “cuidáveis”. Cuidar mais que um ato isolado, é uma atitude constante de ocupação, preocupação e ternura com o semelhante, que sabe unir competência técnico-científica, com humanismo e ternura humana. 

O descuido e a indiferença facilmente nos animalizam, mas o cuidado nos resgata como humanos e nos humaniza. Isto é sentido principalmente nos momentos de vulnerabilidade máxima, que são basicamente em dois momentos chaves de nossas vidas, ou seja, quando passamos a existir e fazer parte do grande show da vida (nascimento) bem como o momento quando, depois de muito viver, somos silenciosamente convidados a sair de cena (despedida da vida). 

Enfim, somente o cuidado respeitoso nos remete à construção de pontes de comunhão e comunicação, em que podemos descobrir o sentido e transcendência da vida, e sentir que não somente passamos pela vida, mas fizemos alguma diferença no bem, deixamos um legado de sentido e valores para os que nos seguirão e  de que enfim, valeu apena viver!  Acreditamos que este é o milagre do cuidado, como atitude de vida! Portanto, cuidemo-nos, cuidando dos outros!

 

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